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Português - Prova 1

Primeira Fase - Prova de Exatas e Tecnológicas/Humanas e Artes

1. (Unicamp 2021) Esses artifícios de montagem, mixagem e scratching dão ao rap uma variedade de formas de apropriação que parecem tão volúveis e imaginativas quanto as das artes maiores – como, digamos, as exemplificadas na “Mona Lisa de bigode” de Duchamp e nas múltiplas reduplicações de imagens comerciais pré-fabricadas de Andy Warhol. O rap também apresenta uma variedade de conteúdos. Não apenas utiliza trechos de canções populares, como também absorve ecleticamente elementos da música clássica, de apresentações de TV, de jingles de publicidade e da música eletrônica de videogames. Ele se apropria até mesmo de conteúdos não musicais, como reportagens de jornais na TV e fragmentos de discursos de Malcom X e Martin Luther King.

(Richard Shusterman, Vivendo a arte. São Paulo: Editora 34, 1998, p.149.)

A emergência e a consolidação do rap como linguagem artística foram cercadas de polêmicas de natureza ética, política e cultural. Com base no excerto acima e no quadro de Marcel Duchamp, assinale a alternativa correta

A emergência e a consolidação do rap como linguagem artística foram cercadas de polêmicas de natureza ética, política e cultural. Com base no excerto acima e no quadro de Marcel Duchamp, assinale a alternativa correta.

  1. Os elementos poéticos do rap não podem ser comparados aos procedimentos das artes maiores, pois sua preocupação é mais política do que artística.
  2. A incorporação das referências culturais nas canções dos Racionais Mc’s é comparável ao gesto de Marcel Duchamp ao pintar um bigode na Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Ambos são apropriações imaginativas e críticas.
  3. O modernismo de Marcel Duchamp, os quadros do pintor norte-americano Andy Wahrol e as canções de rap não têm valor artístico, pois expressam a degradação e o ecletismo de uma sociedade de massas.
  4. O rap dos Racionais Mc’s e as artes modernas não fazem distinção entre a cultura erudita e a de massa, misturam os seus elementos e produzem obras destituídas de crítica social.

2. (Unicamp 2021) Certas imagens literárias podem tornar-se nucleares para uma cultura. Assim, por exemplo, a figura do marinheiro em Portugal. Ela adquire significados diferentes em períodos históricos distintos, mas conserva um elemento permanente. A semelhança entre a imagem do marinheiro em Camões e em Fernando Pessoa reside

  1. no realismo moral do povo português, resultado da era das grandes navegações e da expansão do catolicismo.
  2. na representação de uma identidade coletiva e individual sob o signo da mudança, do risco e da travessia.
  3. na alegoria da degradação moral dos amantes e dos aventureiros, movidos pelo desejo sexual e pela cobiça material.
  4. na simbolização dos ideais econômicos de Portugal, com reflexos na vida espiritual.

3. (Unicamp 2021) Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança: Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança: Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto, Que já coberto foi de neve fria, E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto, Que não se muda já como soía*. (Luís Vaz de Camões)

*soía: terceira pessoa do pretérito imperfeito do indicativo do verbo “soer” (costumar, ser de costume).

(Luís de Camões, 20 sonetos. Campinas: Editora da Unicamp, p.91.)

Indique a afirmação que se aplica ao soneto escrito por Camões.

  1. O poema retoma o tema renascentista da mudança das coisas, que o poeta sente como motivo de esperança e de fé na vida.
  2. A ideia de transformação refere-se às coisas do mundo, mas não afeta o estado de espírito do poeta, em razão de sua crença amorosa.
  3. Tudo sempre se renova, diferentemente das esperanças do poeta, que acolhem suas mágoas e saudades.
  4. Não apenas o estado de espírito do poeta se altera, mas também a experiência que ele tem da própria mudança.

4. (Unicamp 2021) No conto “O espelho”, de Machado de Assis, uma personagem assume a palavra e narra uma história. Assinale a alternativa que explicita sua interlocução com os cavalheiros presentes.

  1. “Lembra-me de alguns rapazes que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo.”
  2. “Ah! pérfidos! Mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.”
  3. “Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver.”
  4. “O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo.” (Machado de Assis, O espelho. Campinas: Editora da Unicamp, 2019.)

5. (Unicamp 2021) “Era Noca, que vinha toda alterada.

─ Nossa Senhora! Quebrou-se o espelho grande do salão!

─ Quem foi que o quebrou? Perguntou Nina, para dizer alguma coisa.

─ Ninguém sabe. Veja só, que desgraça estará para acontecer! Espelho quebrado: morte ou ruína.

─ Morte! Se fosse a minha...” (Júlia Lopes de Almeida, A Falência. Campinas:

Editora da Unicamp, 2018, p. 257.)

O diálogo apresenta a reação das personagens femininas ao incidente doméstico com o objeto de decoração no palacete de Botafogo. Assinale a alternativa que justifica a fala final de Nina.

  1. A destruição do espelho a leva a desejar a morte, pois sugere o alívio para a frustração amorosa.
  2. A quebra do espelho lhe provoca o temor da morte, uma vez que antecipa a ruína financeira.
  3. A destruição do espelho traz a certeza da morte, pois sinaliza o suicídio do ser amado.
  4. A quebra do espelho a faz desejar a morte, pois sugere a catástrofe amorosa do casamento.

6. (Unicamp 2021) “Repartimos a vida em idades, em anos, em meses, em dias, em horas, mas todas estas partes são tão duvidosas, e tão incertas, que não há idade tão florente, nem saúde tão robusta, nem vida tão bem regrada, que tenha um só momento seguro.”

(Antonio Vieira, “Sermão de Quarta-feira de Cinza – ano de 1673”, em A arte de morrer. São Paulo: Nova Alexandria, 1994, p. 79.)

Nesta passagem de um sermão proferido em 1673, Antônio Vieira retomou os argumentos da pregação que fizera no ano anterior e acrescentou novas características à morte. Para comover os ouvintes, recorreu ao uso de anáforas.

Assinale a alternativa que corresponde ao efeito produzido pelas repetições no sermão.

  1. A repetição busca sensibilizar os fiéis para o desengano da passagem do tempo.
  2. A repetição busca demonstrar aos fiéis o temor de uma vida longeva.
  3. A repetição busca sensibilizar os fiéis para o valor de cada etapa da vida.
  4. A repetição busca demonstrar aos fiéis a insegurança de uma vida cristã.

7. (Unicamp 2021) De acordo com Heloísa Starling, “Sertão é uma palavra carregada de ambiguidade. Sertão pode indicar a formação de um espaço interno, a fronteira aberta, ou um pedaço da geografia brasileira onde a terra se torna mais árida, o clima é seco, a vegetação escassa. Mas a palavra é igualmente utilizada para apontar uma realidade política: a inexistência de limites, o território do vazio, a ausência de leis, a precariedade dos direitos. Sertão é, paradoxalmente, o potencial de liberdade e o risco da barbárie – além de ser também uma paisagem fadada a desaparecer.

(Adaptado de Heloisa Murgel Starling, A palavra “sertão” e uma história pouco edificante sobre o Brasil. Disponível em https://www.suplementopernambuco. com.br/artigos/2243-a-palavra-sert%C3%A3o-e-uma-hist%C3%B3ria-pouco-edifi cante-sobre-o-brasil.html. Acessado em 06/08/2020.)

Assinale o excerto que corresponde à ideia de sertão desenvolvida pela autora.

  1. “Se achardes no Sertão muito sertão, lembrai-vos que ele é infinito, e a vida ali não tem esta variedade que não nos faz ver que as casas são as mesmas, e os homens não são outros.” (Machado de Assis)
  2. “Nessa época o sertão parece a terra combusta do profeta; dir-se-ia que por aí passou o fogo e consumiu toda a verdura, que é o sorriso dos campos e a gala das árvores, ou o seu manto, como chamavam poeticamente os indígenas.” (José de Alencar)
  3. “Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade.” (Guimarães Rosa)
  4. “Dilatam-se os horizontes. O firmamento, sem o azul carregado dos desertos, alteia-se, mais profundo, ante o expandir revivescente da terra. E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono.” (Euclides da Cunha)

8. (Unicamp 2021) Entre os versos de Gilberto Gil transcritos a seguir, podemos identificar uma relação paradoxal em:

  1. “Sou viramundo virado / pelo mundo do sertão.”
  2. “Louvo a luta repetida / da vida pra não morrer.”
  3. “De dia, Diadorim, / de noite, estrela sem fim.”
  4. “Toda saudade é presença / da ausência de alguém.”

9. (Unicamp 2021) A Equipe AzMina fez um experimento buscando no Google “frases para o Dia das Mães”. E o resultado foi um festival de frases que romantizam a maternidade. Ativaram, então, “sua caneta desromantizadora” para “corrigir” essas frases que estamos tão acostumados a ouvir, e muitas vezes reproduzir.

A Equipe AzMina fez um experimento buscando no Google “frases para o Dia das Mães”. E o resultado foi um festival de frases que romantizam a maternidade. Ativaram, então, “sua caneta desromantizadora” para “corrigir” essas frases que estamos tão acostumados a ouvir, e muitas vezes reproduzir

As frases são “desromantizadas” porque a Equipe AzMina reconhece

  1. o sofrimento como condição para a vocação materna e para a realização feminina.
  2. o amor materno como herança familiar, mesmo quando ele é remunerado.
  3. a sobrecarga das mães na criação dos filhos, considerando também outras formas de maternidade.
  4. a maternidade como sendo difícil, trabalhosa e, ainda assim, heroica e instintiva.

10. (Unicamp 2021) Entre todas as palavras do momento, a mais flamejante talvez seja desigualdade. E nem é uma boa palavra, incomoda. Começa com des. Des de desalento, des de desespero, des de desesperança. Des, definitivamente, não é um bom prefixo.

Desigualdade. A palavra do ano, talvez da década, não importa em que dicionário. Doravante ouviremos falar muito nela.

De-si-gual-da-de. Há quem não veja nem soletre, mas está escrita no destino de todos os busões da cidade, sentido centro/subúrbio, na linha reta de um trem. Solano Trindade, no sinal fechado, fez seu primeiro rap, “tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome”, somente com esses substantivos. Você ainda não conhece o Solano? Corra, dá tempo. Dá tempo para você entender que vivemos essa desigualdade. Pegue um busão da Avenida Paulista para a Cidade Tiradentes, passe o valetransporte na catraca e simbora – mais de 30 quilômetros.

O patrão jardinesco vive 23 anos a mais, em média, do que um humaníssimo habitante da Cidade Tiradentes, por todas as razões sociais que a gente bem conhece.

Evitei as estatísticas nessa crônica. Podia matar de desesperança os leitores, os números rendem manchete, mas carecem de rostos humanos. Pega a visão, imprensa, só há uma possibilidade de fazer a grande cobertura: mire-se na desigualdade, talvez não haja mais jeito de achar que os pontos da bolsa de valores signifiquem a ideia de fazer um país.

(Adaptado de Xico Sá, A vidinha sururu da desigualdade brasileira. Em El País, 28/10/2019. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/28/opinion/ 1572287747_637859.html?fbclid=IwAR1VPA7qDYs1Q0Ilcdy6UGAJTwBO_snM DUAw4yZpZ3zyA1ExQx_XB9Kq2qU. Acessado em 25/05/2020.)

A crônica instiga o leitor a ficar atento à desigualdade na cidade de São Paulo.

Assinale a alternativa que identifica corretamente os recursos expressivos (estilísticos e literários) de que se vale o autor.

  1. Uso de verbos no imperativo, linguagem informal, texto impessoal.
  2. Marcas de coloquialidade, uso de primeira pessoa, linguagem objetiva.
  3. Marcas de oralidade, uso expressivo de recursos ortográficos, subjetividade do autor.
  4. Uso de variação linguística, linguagem neutra, apelo ao tom coloquial.

11. (Unicamp 2021) Assinale a alternativa que identifica corretamente recursos linguísticos explorados pelo autor nessa crônica

  1. Uso de verbos no imperativo, linguagem informal, texto impessoal.
  2. Marcas de coloquialidade, uso de primeira pessoa, linguagem objetiva.
  3. Marcas de oralidade, uso expressivo de recursos ortográficos, subjetividade do autor.
  4. Uso de variação linguística, linguagem neutra, apelo ao tom coloquial.

12. (Unicamp 2021) “Se Cabral tivesse uma vaga noção d’ACAPA de hoje, véspera do 22 de abril de 2020, provavelmente teria desviado o curso de suas caravelas rumo a outras terras.”

“Se Cabral tivesse uma vaga noção d’ACAPA de hoje, véspera do 22 de abril de 2020, provavelmente teria desviado o curso de suas caravelas rumo a outras terras.”

ACAPA é um perfil de Facebook, que publica capas possíveis de revista. O efeito humorístico na leitura dessa edição de ACAPA decorre mais precisamente do uso

  1. da expressão “terra à vista”, que remete à época em que a terra ainda era plana.
  2. da expressão “abundam birutas”, em referência aos povos originários do Brasil.
  3. do pronome relativo “cujo” para indicar o destino traçado para a terra plana há 520 anos.
  4. da imagem de uma biruta mostrando a direção do vento, aliada à referência a “birutas” atuais.

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