BRICS
Os BRICS representam uma das transformações mais significativas na geopolítica e economia global do século XXI. Originalmente referindo-se a Brasil, Rússia, Índia e China, com a posterior inclusão da África do Sul, este grupo de economias emergentes busca reequilibrar o poder mundial, oferecendo alternativas às instituições financeiras tradicionais dominadas pelo Ocidente. Os BRICS juntos representam mais de 40% da população mundial, cerca de 25% do PIB global e aproximadamente 15% do comércio internacional.
Origens e Evolução dos BRICS
O termo BRIC foi cunhado em 2001 pelo economista Jim O'Neill, do banco Goldman Sachs, em um relatório intitulado "Building Better Global Economic BRICs". Inicialmente um conceito de análise de investimento, referia-se às quatro grandes economias emergentes que estavam crescendo rapidamente e que, segundo projeções, dominariam a economia mundial até 2050.
O conceito transformou-se em realidade política quando os ministros das relações exteriores desses países reuniram-se pela primeira vez em 2006, iniciando um processo de cooperação que levou à primeira cúpula presidencial em 2009, em Yekaterinburg, Rússia. Em 2010, a África do Sul foi formalmente convidada a ingressar no grupo, transformando BRIC em BRICS.
Países Membros e Características
Composição Original e Expansão (2023)
Os membros fundadores dos BRICS possuem características distintas mas complementares:
- Brasil: Maior economia da América Latina, potência agrícola e de recursos naturais
- Rússia: Maior reserva de recursos energéticos e minerais do mundo, potência militar
- Índia: Democracia mais populosa do mundo, hub tecnológico e de serviços
- China: Segunda maior economia mundial, "fábrica do mundo", líder em manufatura
- África do Sul: Economia mais industrializada da África, porta de entrada para o continente
Na XV Cúpula dos BRICS em 2023, realizada em Johanesburgo, o grupo anunciou a expansão mais significativa desde sua criação, com a adesão de seis novos membros a partir de janeiro de 2024:
- Argentina: Recursos agrícolas, atualmente em processo de adesão ao Mercosul
- Egito: Economia mais diversificada do Norte da África, controle do Canal de Suez
- Etiópia: Economia de mais rápido crescimento na África, hub de aviação continental
- Irã: Reservas significativas de petróleo e gás, localização geoestratégica
- Arábia Saudita: Maior exportador de petróleo do mundo, líder do mundo árabe
- Emirados Árabes Unidos: Hub financeiro e comercial do Oriente Médio
Objetivos e Princípios Fundamentais
Os BRICS operam com base em princípios comuns que orientam sua cooperação:
- Reforma das instituições financeiras internacionais: Busca maior representatividade no FMI e Banco Mundial
- Promoção de uma ordem mundial multipolar: Contrapeso à hegemonia ocidental
- Cooperação Sul-Sul: Fortalecimento das relações entre países em desenvolvimento
- Respeito à soberania e não-intervenção: Princípio central nas relações entre membros
- Desenvolvimento sustentável e inclusivo: Foco em crescimento que beneficie todas as camadas sociais
Diferença em Relação a Blocos Tradicionais
Ao contrário de blocos econômicos regionais como a União Europeia ou o Mercosul, os BRICS não buscam integração econômica profunda ou políticas comuns. Trata-se de um fórum de coordenação política e cooperação seletiva em áreas de interesse mútuo, mantendo a soberania nacional como valor supremo.
Mecanismos e Instituições dos BRICS
Os BRICS desenvolveram uma arquitetura institucional própria, embora menos formalizada que a de blocos tradicionais:
Novo Banco de Desenvolvimento (NBD)
Criado em 2014 e com sede em Xangai, o NBD representa a principal realização institucional dos BRICS. Com capital autorizado de US$ 100 bilhões, tem como objetivos:
- Financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável
- Oferecer alternativas ao Banco Mundial e FMI
- Mobilizar recursos para projetos em países emergentes
- Operar em moedas locais para reduzir dependência do dólar
Até 2023, o NBD havia aprovado mais de 90 projetos com valor total superior a US$ 32 bilhões.
Arranjo Contingente de Reservas (ACR)
Estabelecido em 2015 com fundos de US$ 100 bilhões, o ACR funciona como uma rede de proteção financeira para situações de crise de balanço de pagamentos, alternativa ao FMI. A China contribui com US$ 41 bilhões, Brasil, Índia e Rússia com US$ 18 bilhões cada, e África do Sul com US$ 5 bilhões.
Outros Mecanismos de Cooperação
- BRICS Business Council: Fórum para negócios e investimentos intra-BRICS
- Conselho de Especialistas em Governança Econômica
- Fórum de Cidades dos BRICS
- Cooperação em ciência, tecnologia e inovação
- Parceria na Nova Agenda de Desenvolvimento Urbano
Conquistas e Impacto Global dos BRICS
Influência nas Instituições Financeiras Globais
A pressão dos BRICS contribuiu para reformas no sistema de cotas do FMI em 2010 e 2016, aumentando modestamente a participação de países emergentes. China e Índia estão agora entre os 10 maiores acionistas do FMI.
Comércio e Investimentos Intra-BRICS
O comércio entre os países BRICS cresceu de US$ 27 bilhões em 2002 para aproximadamente US$ 500 bilhões em 2022. A China é o principal parceiro comercial de todos os outros membros.
Cooperação em Energia e Segurança Alimentar
Os BRICS coordenam políticas em áreas estratégicas como segurança energética (Rússia é grande fornecedor) e segurança alimentar (Brasil e Rússia são grandes exportadores agrícolas).
Diálogo sobre Governança da Internet
Os BRICS defendem uma governança multipolar da internet, contrapondo-se ao modelo dominado pelos Estados Unidos através da ICANN.
Desafios e Tensões Internas
Apesar dos avanços, os BRICS enfrentam desafios significativos:
Assimetrias Entre os Membros
Existem enormes diferenças econômicas, com a China representando mais de 70% do PIB total do grupo, criando desequilíbrios nas relações internas.
Conflitos Bilaterais
Tensões fronteiriças entre China e Índia, diferenças sobre a guerra na Ucrânia (Rússia vs. outros membros), e disputas comerciais ocasionais testam a coesão do grupo.
Heterogeneidade Política
O grupo reúne democracias (Brasil, Índia, África do Sul) e regimes autoritários (China, Rússia, Irã), com visões diferentes sobre direitos humanos e governança.
Falta de Coesão em Políticas Externas
Os membros frequentemente adotam posições divergentes em fóruns internacionais como a ONU, refletindo interesses nacionais distintos.
Expansão dos BRICS e Cenário Futuro
A decisão de expansão em 2023 representa um ponto de virada na trajetória do grupo:
Critérios para Novos Membros
Os BRICS estabeleceram parâmetros para futuras adesões, incluindo:
- Alinhamento com princípios e objetivos do grupo
- Potencial de contribuição para a cooperação BRICS
- Representatividade regional e influência internacional
- Capacidade econômica e estabilidade política
Impacto da Expansão
Com a adesão dos novos membros, os BRICS+ representarão:
- Quase 50% da população mundial
- Aproximadamente 37% do PIB global (em paridade de poder de compra)
- Mais de 45% da produção mundial de petróleo
- Presença em todos os continentes habitados
Desdolarização e Sistema Financeiro Alternativo
Um dos temas centrais nas discussões recentes é a redução da dependência do dólar no comércio e finanças internacionais. Em 2023, mais de 20% do comércio entre os BRICS já era realizado em moedas locais, com tendência de crescimento.
Posicionamento em Temas Globais
Os BRICS buscam maior influência em questões como mudança climática, governança tecnológica, reforma da ONU e regulação da inteligência artificial, posicionando-se como voz coletiva do "Sul Global".
BRICS no Contexto Geopolítico Atual
Em um mundo marcado por crescentes tensões entre Ocidente e Oriente, os BRICS assumem papel cada vez mais relevante:
O grupo oferece uma plataforma para países que não desejam alinhar-se automaticamente com os Estados Unidos ou China, buscando uma "terceira via" na política internacional. Esta posição foi evidenciada durante a guerra na Ucrânia, quando membros como Índia, Brasil e África do Sul adotaram posturas de neutralidade ou mediação.
À medida que o sistema internacional se torna mais multipolar e contestado, os BRICS representam não apenas um agrupamento econômico, mas um projeto político alternativo que questiona a ordem liberal internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. Seu sucesso em construir instituções paralelas e promover uma agenda distinta será um dos fatores determinantes da configuração do poder global nas próximas décadas.